"Do povo um clamor". O trecho emblemático do hino do Esporte Clube Bahia foi usado para apresentar, na noite da última terça-feira (21), a nova camisa tricolor para a temporada de 2026. Porém, o fragmento não ilustra muito bem os valores cobrados pelo Esquadrão na linha torcedor, que atualmente custa R$ 369,99, de acordo com o site da loja oficial do clube.
O preço representa quase um quarto (22,8%) do salário mínimo no Brasil, que é R$ 1.621 sem descontos. Vale lembrar que o trabalhador baiano amarga a segunda pior remuneração do país, recebendo apenas R$ 2.284 por mês em média, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).
Em 2018, o Bahia inaugurou sua marca própria chamada de "Esquadrão" e estreou a linha torcedor pelo valor de R$ 99 — o que representava cerca de 10% do salário mínimo vigente à época (R$ 954). Originalmente, a estratégia era oferecer uma alternativa acessível para que os tricolores de baixa renda não recorressem à pirataria para vestir o "manto".
Porém, os valores cobrados atualmente parecem jogar contra o próprio gol. O BNews observou que na chamada 'Era City' — iniciada em maio de 2023, quando o City Football Group (CFG) assumiu o controle de 90% da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Bahia —, houve um aumento de 273% no preço das camisas populares na comparação com a época em que a alternativa foi implementada.
Antes do City (a.C.) e depois do City (d.C.)
A reportagem realizou um levantamento dos preços cobrados na linha torcedor do Tricolor baiano, com os valores corrigidos pela inflação acumulada de dezembro de 2018, quando o primeiro modelo foi lançado, até março de 2026 — uma vez que os dados da inflação de abril ainda não foram consolidados. Nenhuma outra linha de camisas do Bahia foi considerada.
Entre os anos de 2018 e 2026, os valores da linha torcedor saltaram de R$ 99 a R$ 369,99, o que representa uma alta de mais de 273% em apenas oito anos — valor cinco vezes maior do que a inflação acumulada no período, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que registrou de 48%.
EC Bahia
Para chegar aos números, o BNews usou a calculadora do Banco Central (BC). Com base no cálculo, se lançada hoje, a primeira linha popular do Bahia custaria aproximadamente R$ 147 em valores corrigidos pela inflação, preço muito mais próximo do cobrado na linha torcedor de 2025 atualmente — que entrou em promoção após a estreia do novo uniforme, caindo de R$ 329,99 para R$ 197,99.
A reportagem observou ainda que o pico nos valores do 'manto' começaram ainda na gestão passada, de maneira mais discreta, e se consolidaram na Era City. O preço de R$ 99 foi mantido do seu lançamento até 2021, quando o Bahia foi rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro.
O ciclo de alta começou em 2022, quando as linhas populares começaram a ser vendidas por R$ 119,99 — acréscimo de 21,2% na comparação com o ano base de 2018. O novo preço foi mantido no lançamento dos uniformes de 2023, antes do atual CEO do Bahia, Raul Aguirre, iniciar os trabalhos em maio daquele ano.
É importante frisar que parte do período analisado pelo BNews esbarra na pandemia da Covid-19, que afetou o mundo entre março de 2020 e maio de 2023 — elevando parcialmente o custo de produção global e da aquisição das commodities (matérias-primas) usadas na indústria têxtil e em diversos setores da economia.
Quando não 'Era City', era mais barato
Porém, tudo mudou em 2024. Já sob pleno controle do conglomerado, o Bahia passou a cobrar R$ 50 a mais em sua linha popular de uniformes logo de cara, saindo de R$ 119,99 para R$ 159,99, um aumento de 33,3%, o que era inédito até então.
Em 2025, a marca própria foi abandonada dando lugar à fornecedora alemã Puma. Nessa esteira, os valores mais que dobraram ao saírem de R$ 159,99 para R$ 329,99 — uma alta de 106,2%. Já no lançamento do uniforme tricolor de 2026, na última terça, o ciclo de altas se manteve. Desta vez, os preços saltaram 12%, alcançando incríveis R$ 369,99.
A reportagem observou que, considerando apenas os aumentos da Era City, de 2023 até 2026, a alta é 208,35%. Já na comparação com o ano-base de 2018, quando a linha popular foi colocada em prática, a alta ultrapassa os 273%.
O BNews questionou o Esporte Clube Bahia para entender a origem do aumento e se há possibilidade da criação de uma política para baratear o preço das camisas, democratizando o acesso a esse tipo de produto para que os tricolores não voltem a recorrer à pitaria. No entanto, por meio da assessoria, o Bahia afirmou que não vai se manifestar.